18 Maio, 2016

O Alkantara vai ao São Luiz

“O Alkantara Festival apresenta no São Luiz Teatro Municipal cinco novas obras de dança, cinco solos “acompanhados” provenientes de diferentes pontos geográficos, não-europeus, que nos leva a questionar o nosso posicionamento como cidadãos do mundo, sob pontos de vista que extravasam o pensamento ocidental político, cultural e artístico.

A 29 e 30 de maio Archive (2014), de Arkadi Zaides traz ao palco o longo conflito dos territórios ocupados pelo estado de Israel. Este solo questiona a forma como um artista israelita se posiciona face a este conflito ao mesmo tempo que o corpo do bailarino se transforma num arquivo vivo de registos obtidos com câmaras de filmar distribuídas pela ONG israelita B´Tselem às populações da Cisjordânia, de Jerusalém Oriental e de Gaza. Os vídeos realizados por voluntários documentam o quotidiano destes territórios e denunciam a ocupação.

About Kazuo Ohno (2013), apresentado a 1 e 2 de junho, é um espetáculo onde Takao Kawaguchi exercita a possibilidade de reencarnar no seu corpo de bailarino o grande mestre da dança Butô sem, contudo, ter formação específica para tal e tendo aprendido as coreografias imitando o mestre a partir de registos vídeo, juntando-as numa peça de citação que lhe presta homenagem. Esta revisitação viria a causar polémica no meio da dança de Tóquio – por estar a tentar copiar o inimitável – mas resulta numa coreografia ímpar em que Kawaguchi cria em dueto com a imagem ilusória de Ohno.

Artista na Cidade Faustin Linyekula apresenta a 4 e 5 de junho The Dialogue Series: IV. Moya. A performance da bailarina Moya Michael – emigrada em Bruxelas há 18 anos – expõe em palco as escolhas e inquietudes de uma mestiça nascida na África do Sul durante o Apartheid. Um solo acompanhado, vulnerável e honesto que desarma pela simplicidade e com forte componente musical (com obras de Abdullah Ibrahim, Mahlathini and the Mahotella Queens, Franco, entre outros) na qual Linyekula discorre em voz off sobre a dificuldade de fazer sentido para os públicos e comunidades tão distantes que o seu trabalho alcança.

A 7 e 8 de junho chega-nos En Alerte (2016), de Taoufiq Izeddiou, onde o coreógrafo se coloca uma questão: é possível conciliar dança e espiritualidade através de duas formas de fazer dança – a tradicional em Marrocos e a contemporânea em França? Utilizando a primeira para evocar a segunda, Taoufiq debruça-se pelas referências que refletem sociedades com convicções e comportamentos que muitas vezes se antagonizam mas que também se podem (e devem) completar.  Acompanhado por dois músicos – um com a moderna e popular guitarra elétrica e outro com o gimbri, representante da antiga música espiritual africana e islâmica – Izeddiou é o elemento fulcral que circula no espaço como catalisador e depósito dos acontecimentos.
O espetáculo que fecha o ciclo de cinco solos no São Luiz Teatro Municipal é 55 (2014), a primeira criação de Radouan Mriziga (foto), o mais novo dos convidados, que apresenta uma proposta diferente das restantes: um espetáculo construído a partir do número cinco e das medidas do corpo do bailarino e coreógrafo nascido em Marraquexe. Mriziga transforma as influências híbridas da sua dança numa linguagem única e pessoal, situada algures entre a sobriedade e a sensualidade, entre a concetualização e a fisicalidade, entre o estrutural e o sentimental.”

Alkantara Festival