5 Julho, 2016

Noites de Verão no Palácio Pombal

Arrancam as Noites de Verão da Filho Único, este ano também com concertos no Jardim do Palácio Pombal (na Rua do Século) durante o mês de julho. Sempre às sextas e sempre gratuitos.

8 Julho, 19h30 – Bonga (AO)
15 Julho, 19h30 – Pega Monstro (PT)
22 Julho, 19h30 – Luís Severo (PT)
29 Julho, 19h30 – Katuta Branka (CV)

 

“No seu sétimo ano de vida, o ciclo de concertos Noites de Verão dividir-se-á este ano entre o Jardim do Palácio Pombal, sito na Rua do Século, e o Jardim das Esculturas do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, mantendo-se o habitual horário das Sextas-feiras, pelas 19h30, e com entrada livre. Este programa de música ao vivo produzido e programado pela Filho Único é desenhado, em congruência com o objectivo e missão desta associação cultural sediada em Lisboa e com a identidade e vocação do Museu Nacional de Arte Contemporânea que o acolheu desde o primeiro dia, com o intuito de apresentar e divulgar propostas na área da música que trabalhem a partir de critérios construtivos de produção artística, que visem o desenvolvimento da arte e contenham em si um cariz de busca e de progressão estética.

 

Bonga (AO)

Bonga é um ícone vivo da cultura Angolana, referência incontornável do semba, música de onde partiu como compositor e vocalista para com um carisma, uma abertura de espírito herdeira do passado da rebita, da vibrância dos antigos Carnavais, da efervescência artística dos musseques de Luanda dos anos 50, edificar um património cultural e político fundamental na história dos últimos 40 anos de Angola e da diáspora africana lusófona. Nascido em 1943 em Porto de Kipiri, aos 23 tornou-se uma sensação do atletismo em Portugal ao serviço do Benfica. A partir de 1972 concentra-se unicamente na música, quando é descoberto o papel activo que desempenhava no trânsito de comunicações da resistência anti-fascista angolana e portuguesa, dado que podia viajar livremente devido ao seu estatuto de estrela desportiva, e no exílio forçado em Roterdão, grava o seminal “Angola 72”, com canções em língua quimbundo embargadas de nostalgia da sua terra e verve de denúncia firme, sob o signo do cancioneiro popular angolano e perfume da música cabo-verdiana. Ao longo do resto da década grava novos discos com novos colaboradores, muda-se para Paris e dá os primeiros passos em concertos nos Estados Unidos e Europa. Nos anos 80 decide reinventar-se, com a formação da banda Semba Masters, reunindo instrumentistas escolhidos a dedo para resistir contra a então tendência progressiva de desaparecimento da matriz tradicional do semba, tendo viajado e pisado palcos icónicos pelo mundo fora, do Apollo Theater no Harlem ao Olympia de Paris. Em Portugal, onde escolhe também passar a residir por alturas do LP “Reflexão”, é o primeiro artista africano a actuar a solo dois dias consecutivos no Coliseu dos Recreios, e o primeiro a arrecadar Discos de Ouro e de Platina pelo sucesso de vendas alcançado. Celebrados os seus 70 anos de vida em 2012, ano em que lançou o 30º álbum “Hora Kota”, coberto de afecto pelo manto do público inter-geracional que o segue ouvindo ou descobrindo, e coleccionando distinções institucionais e diplomáticas internacionais, é um privilégio contar com a sua actuação na abertura das Noites de Verão e na estreia no Palácio Pombal, acompanhado por uma banda com guitarrista, baixista, acordeonista e baterista, em que pontifica em voz e dikanza.

Entrevista

Pega Monstro (PT)

Banda de rock de Lisboa formada pelas irmãs Maria (voz e guitarra) e Júlia Reis (bateria e voz), afiliado à Cafetra Records que ajudaram a criar e desenvolver desde 2008. Lançaram há 4 anos o já clássico homónimo longa-duração de estreia, produzido por B Fachada. O seu segundo álbum intitulado “Alfarroba” foi lançado no Verão do ano passado pela editora londrina Upset The Rhythm. “Alfarroba” continua a ser, da raiz da sua intenção, imaginação e materialização, um álbum magnífico e raro. Directo, simples e comovente porque subtil, complexo e excitante. Das obras, seja em que campo das artes se quiser considerar, com uma perspectiva no feminino mais forte e emocionalmente inteligível sobre maturação individual e artística na sociedade portuguesa nos dias de hoje. No final de 2015 foi-lhe atribuído o prémio ‘Disco do Ano’ pela revista Time Out. Depois de um ano intenso de concertos em Portugal e no resto da Europa, sendo exemplo mais próximo na memória as datas em França e Espanha a abrir para os Animal Collective, as Pega aprestam-se a entrar em estúdio este Verão para gravação do terceiro álbum.

“Amêndoa Amarga” no 5 Para a Meia-Noite

 

Luís Severo (PT)

No final do ano passado Luís Severo lançou o seu quarto longa-duração “Cara D’Anjo” na editora Gentle Records, o primeiro depois de ter deixado cair o anterior nome artístico O Cão da Morte, escolhido ainda na adolescência. Disco de uma sofisticada confiança, o seu charme e brilho que a tantos tocou parece resultar de o seu autor ter encontrado o equilíbrio optimizado entre talento e técnica que procurava para o seu ofício da escrita de canções, dado que persistência nunca lhe faltou. Já bebia (da) e convivia com a nova guarda – B Fachada, Samuel Úria, Pega Monstro -, e nos últimos anos conduzido pela sua sede de (se) conhecer, teve aulas de canto, continuou a comprar equipamento de estúdio, e mergulhou na história do fado, com particular paixão por Argentina Santos, descobrindo novas, clássicas, formas de trabalhar a língua, dicção e métrica. Reuniu uma banda, para o disco, e para tocar ao vivo o mais possível, e continuou a dar fogo à peça nos Flamingos, duo com o seu parceiro a Norte, Coelho Radioactivo. A voracidade da ideia musical com apetite pelo registo imediato deu lugar à sua noção de tempo na escolha assertiva de melodias e arranjos, com a consistência pela experimentação patente nos discos até aqui a dar lugar a um patamar interessante de aprimoramento que importa continuar a seguir.

“Cara d’Anjo” vídeo

 

Katuta Branka (CV)

Katuta Branca é um dos nomes mais importantes da história do Funaná, uma música que teve a sua origem com a chegada do acordeão a Cabo Verde no início do século XX, numa calculada mas algo falhada manobra de aculturação colonialista portuguesa. O que sucedeu, conta a tradição oral, foi que o camponês do interior de Santiago apropriou-se deste instrumento para cantar a sua alma e a sua vivência típica; com muita pobreza, revolta e contestação escondidas, motivos que levaram a que essa música fosse proibida em lugares públicos, durante a época colonial. Katuta é natural da ilha de Santiago, a viver na Damaia, Grande Lisboa, desde 1994, tendo mantido um trajecto sólido em festivais internacionais e no circuito europeu da diáspora cabo-verdeana ao longo dos anos. Os concertos de Katuta são descritos como uma festa que se gera sem pedir licença, pela força de character exuberante da música. Traz a cultura de Funaná consigo numa genuidade à flor da pele, “com aquele sentimento de liberdade eufórica que nos tempos coloniais apenas se podia sentir ao fim do dia, e fugindo aos ouvidos da Polícia. O Funaná nasceu e permaneceu como desafio à autoridade, à submissão.”, como qualificaram Celeste/Mariposa numa apresentação sua de Katuta.

“Trabadja Só Pa Mundo”

 

Norberto Lobo (PT)

Norberto Lobo é uma das figuras principais da música portuguesa contemporânea, um artista independente e empírico, que não ironiza sobre o futuro ou o destino, antes age, opera e materializa, e assim no curso da sua carreira vai transformando o seu mundo e o de quem o ouve e acompanha. Contando já 5 álbuns na sua discografia a título individual, sabe-se que depois do Verão poderemos contar com um novo trabalho. Sucederá a ‘Fornalha’ de 2014, a última vez que voltamos a realizar que a probabilidade de não existir mais território para as suas composições à guitarra é justamente desarmada pelo espaço prodigioso que a sua música continua a abrir e a oferecer-nos. Norberto continua a impulsionar a inovação no seu trabalho com uma subtileza tal que o parece revestir de uma espécie de liberdade fantástica, qualidade também presente nos Oba Loba, o sexteto de música criativa expandido a partir da parceria nuclear estabelecida com o baterista João Lobo, e que tem mantido uma preenchida agenda ao vivo pelo continente europeu nos últimos tempos.

Vídeo ao vivo no Serralves Em Festa 2016

 

Evan Parker (GB)

Evan Parker é, desde há praticamente 50 anos, um dos grandes saxofonistas e músicos em actividade. Nascido em Bristol em 1944, foi ao assistir a um concerto do quarteto de John Coltrane em 1962, momento que determinou – como diz – a sua “escolha de tudo”, que começou a ser para ele mais clara a área estética onde viria a investir. Ajudou de forma crucial a desenhar um jazz britânico, mas também europeu, que com os anos vem chamando de livre improvisação, termo e prática que passou a partilhar com uma pequena comunidade de contemporâneos seus nos anos 1960, e que entretanto se expandiu ao mundo inteiro. Olhar para a discografia de Parker é quase como ler a história desta herança e metodologia musicais que não cessam de se desenvolver e reconfigurar. Desde o seu arranque no Spontaneous Music Ensemble com John Stevens, à Music Improvisation Company, até à criação das editoras Incus (com Derek Bailey e Tony Oxley) em 1970 e Psi (agora sozinho, em 2001), Parker permanece um cidadão e artista ávido de uma exploração brava, obsessivamente coerente, feita sempre num impressionante ritmo de trabalho. Por entre mais de 200 registos discográficos e milhares de actuações, formações que mantém há quatro décadas e outras ad hoc, o solo permanece um dos veículos de expressão que lhe é mais querido. O supremo domínio que tem do som e do instrumento, de onde sobressai a sua conhecida técnica de respiração circular, da qual é absoluto virtuoso, permite-lhe trabalhar em extensas formas contínuas no saxofone. Dos raros históricos que permanece tão vital e inquisitivo hoje como na sua juventude, para uma actuação, como sempre quando se trata de Evan Parker, irrepetível.

“Monoceros” (1978, Incus, LP)

 

Inga Copeland (EE)

Música a viver e trabalhar entre Londres e Tallin, natural de Samara, Rússia, com formação em artes visuais, tendo integrado o grupo Hype Williams com Dean Blunt onde se notabilizou especialmente pela sua voz doce embaciada. As suas produções de música electrónica desde o finamento do duo mestre do fascínio do intangível têm revelado uma estética insigne; exigentes, discordantes, contudo melódicas e sensuais. Tem também escolhido por publicar a sua música de forma independente, em edições de autor. O seu trabalho editado mais recente, sob a assinatura autoral de Lolita, é “Live in Paris”, lançado online em formato video em Março, chegando a versão em CD um par de meses depois. No filme, a artista é vista em palco cercada por uma projecção multiscreen do jogo de tabuleiro ‘Monopólio’, numa possível apocrifia conceptual sobre as dinâmicas sócio-económicas-culturais que se trocam em Londres, curiosamente com pontos de contacto interessantes com o actual veículo Babyfather de Dean Blunt.

Live in Paris

 

Mike Cooper (GB)

Uma lenda viva e lúcida por direito próprio, o guitarrista britânico Mike Cooper tem vindo a desenvolver um legado nobre vai para cerca de 50 anos, cujo trabalho continua a ser indevidamente desmerecido. Os Rolling Stones convidaram-no para se juntar à banda no início da década de 60 (história verídica; Brian Jones ficou com o lugar), preferindo a imersão nas cenas de folk e blues do Reino Unido – andou em digressão com Michael Chapman e serandou nos mesmos círculos de Bert Jansch, Wizz Jones e Davey Graham, entre outros. Pela década de 70 progrediu de uma escrita de canções parametrizada por uma leitura pessoal do free jazz, para territórios informes de improvisação livre e, ainda mais tarde, experimentação nos campos da composição electrónica e instalação audio-cénica. O seu percurso caracterizou-se por uma elusividade e pontuação por sucessivas partidas e chegadas, resultando em diversas transformações sonoras. Possuidor de um conhecimento denso da música do Pacífico, tem levado a cabo desde a década de 80 um estudo apaixonado dos limites da exotica, produzindo música e vídeo, consumido positivamente pelas suas viagens. Nos últimos tempos alguns dos seus títulos descatalogados foram alvo de reedição, de “Places I Know/The Machine Gun Co With Mike Cooper” e “Trout Steel” na Paradise of Bachelors a “New Kiribati” na Discrepant, e lançou um novo original e elogiado duplo LP “White Shadows In The South Seas” no início deste ano, voltando a transpor a sua síntese da história do blues e da guitarra slide avant para um espaço mental distante e onírico adornado por ritmos tropicais e gravações de campo.”

Canal Youtube

 Informação gentilmente cedida pela Filho Único